10 de junho de 2010

A metamorfose

Franz Kafka, 1912, República Tcheca

“A metamorfose” conta a história de Gregor, um caixeiro-viajante que mora com os pais e a irmã. Sua personalidade é simples, suas aspirações são medíocres, sua vida gira em torno do trabalho e do compromisso de levar o sustento para os pais e tentar oferecer um futuro promissor para a irmã, uma musicista em potencial. Toda essa rotina singela e desinteressante, poderíamos dizer mesmo que empobrecida de vigor, se vê abruptamente quebrada por um acontecimento disparatado: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso” (p.7).

Em Kafka, o que mais espanta não é o absurdo, mas a aparente serenidade e o comportamento blasé dos personagens frente a esse absurdo. Um membro da família amanhece metamorfoseado em um monstro e, superado o choque inicial, as preocupações de Gregor e de seus familiares concentram-se quase que exclusivamente em questões de ordem prática, como se o importante fosse saber como agora o filho vai poder trabalhar, como a família vai se sustentar, como organizar o quarto para melhor proveito do irmão, como esconder essa nova condição de tudo e de todos, o que fazer para a vida seguir com normalidade...

A inesperada mudança é encarada com uma dose desconfortável de tranquilidade :

“E enquanto Gregor expelia tudo às pressas, mal sabendo o que falava, aproximou-se do armário com facilidade – certamente em conseqüência da prática já adquirida na cama – tentando erguer-se apoiado nele. Queria efetivamente abrir a porta, deixar-se ver e conversar com o gerente; estava curioso para saber o que diriam, ao vê-lo, os outros que agora exigiam tanto a sua presença. Se eles se assustassem, então Gregor não tinha mais nenhuma responsabilidade e podia sossegar. Mas se aceitassem tudo tranqüilamente, então ele não tinha motivo para afligir-se e podia, caso se apressasse, estar de fato na estação ferroviária às oito horas” (p.20-21).


Interpretações

O que Kafka pretendia ao criar uma história com um personagem que sofre tão inesperada e impossível transformação?

Alguns vão argumentar que a metamorfose refere-se a adesão, por parte de um indivíduo, a novas ideias e conceitos que não aqueles que transitam no fluxo da mediocridade, algo que o deslocaria dos padrões de seu grupo, de sua sociedade, relegando-o à solidão e ao isolamento. Outros diriam que a transformação ilustra uma deficiência física ou mental que reduz o sujeito a uma condição de incapaz, logo imprestável para o capitalismo e estorvo para a família burguesa. As interpretações não param por aí e podem seguir por inúmeros caminhos tanto mundanos como fantásticos.

Logo, se existe uma resposta à pergunta acima, ela não vai em direção a uma interpretação específica para a bizarra metamorfose, seja de fundo psicológico, moral, histórico ou biológico. O que podemos afirmar, com boa dose de segurança, é que Kafka buscou, no seio da literatura, construir uma metáfora aberta, um signo absorvente à reflexão, capaz de ampliar a nossa percepção sobre imagens e sentidos que escapam à lógica linear e cartesiana a qual estamos acostumados.

Mais do que em outros casos, essa é uma obra que depende muito do leitor, de sua experiência ao percorrer as páginas, da leitura que faz, dos sentimentos que são despertados. “A metamorfose” não oferece nenhuma verdade, ela apenas proporciona asas para que cada um experimente um voo particular e bastante interessante sobre o terreno das incertezas, questionamentos e absurdos que povoam a alma humana.

15 de abril de 2010

Pornopopéia

Reinaldo Moraes, 2008, Brasil

Pornopopéia é uma odisseia pelos atraentes, estranhos e perigosos caminhos da satisfação imediata. Zeca, o protagonista, é um cineasta guiado pelo princípio do prazer; e foda-se a autopreservação. Refém de seus impulsos, vive à caça de pessoas e situações que saciem sua interminável fome de gozo. Em seu cardápio, sexo, comida, poética e estados alterados da mente, servidos isolados ou combinados livremente. E quanto mais de tudo, melhor.

“A alma […] é um organismo arcaico com três órgãos: miolos, estômago e genitália” (p.20), afirma Zeca, exibindo o axioma que fundamenta sua caótica teoria sobre a vida.

Em todo o livro, o escatológico funciona como um marcador dos limites do humano, como uma constante lembrança da finitude da existência e um incentivo para que a vida seja orientada às inúmeras possibilidades orgásticas que oferece. “Toda gente se iguala na morte e na bosta, já deve ter dito algum materialista amargurado. Em outras palavras, o destino dá muitas voltas. O intestino também” (p.365).

Para Zeca, a vida é pra ser vivida, bebida, aspirada, metida e fudida, e, de preferência, “tudo ao mesmo tempo agora” (obrigado Titãs). É se jogar no abismo do gozo, num mergulho em busca do centro do planeta do prazer.

Vísceras sim, pois somos feito delas e por elas. Mas não só, porque através delas também flui a energia do sublime, da poesia, da estética de tudo que pode ser sentido, experimentado. Sobrevivência e transcendência – está aí um binômio que explica muito do nosso frenético personagem (e de todos nós, obviamente). Em suas palavras: “E tudo era poesia, tudo sacanagem, tudo alegria” (p.155).

Pornopopéia é um livro dono de um ritmo vibrante, riquíssimo em significados e recheado com belíssimos neologismos, muita poética e reflexão sobre boa parte daquelas coisas "malucas" que a cabeça humana se dispõe a pensar. Leitura recomendadíssima!

E pra não perder o costume, segue a transcrição de alguns trechos da obra:

Sinapses
“O momento pedia uma cabeça aberta, e todos os buracos da minha estavam escancarados pelo bendito ácido” (p.81).

“O que tá pegando é esse oco na cabeça que sempre me acomete depois duma viagem de ácido. É um oco diferente dessa vez, como uma série de ôcos embutidos um dentro do outro, até o oco nuclear infinitesimal onde se abriga o vazio compacto da alma inexistente” (p.20).

“Nisso que dá passar tanto tempo metido consigo mesmo. O sujeito cogita, cogita, e regurgita metafísica barata” (312).

Identificação
“Adoro essa mulher. Ela é linda, ela é alegre, ela não presta. Nem eu” (p.240).

Vida adulta
“No fim do primeiro ano de casório, porém, o convívio já rolava escada abaixo. Azedumes, resmungos, rancores, ameaças, porradas, diluvianas choradeiras por parte dela, traições de ambas as partes, tédio sem fim, era essa a pauta do nosso casório. Nada de muito original, se for ver. Apenas a experiência partilhada de desencanto e confusão que alguns chamam de vida adulta” (p.433).

Palavras
“Então, vamo vê aqui mais um tico de Jack, um teco de pó, um tapa na brenfa e um totó no bico da breja. Tico, teco, tapa e totó. Adoro essa língua, última flor do felácio, tão puta e bela, que sonora se desdobra em tanto pau pra toda obra” (p.57).

“Ni qui ela fumava o bamba eu tragava o careta, e vício-versa” (p.105).

Uma viagem
“Enquanto ouvia essa cascata que ia me afundando num estado de pré-catalepsia, dei de achar que o ácido me batia agora de um jeito bizarro para os padrões lisérgicos convencionais. As coisas e pessoas se destacavam com nitidez brutal umas das outras, feito pop-ups agressivos que não paravam de pipocar no meu campo visual, cada qual aspirando a assumir o primeiro plano. Pior é que tudo, um pé, um tigre no tapete, o zebu no banner, as ancas da Wyrma debaixo do sari, os peitinhos da Sossô sob a camiseta ainda úmida, a careca peniana do Melquíades, tudo chegava até mim carregado de pesadas e confusas simbologias, como se em outras encarnações eu tivesse de algum modo interagido na mais carnal intensidade com as pessoas e coisas ali presentes.
Embora os detalhes dessa interação tivessem se apagado da memória, isso tinha deixado seqüelas profundas que afloravam agora na crosta líqüida da minha consciência sob a forma de demandas e cobranças, acusações e mágoas, remorsos e ânsias, culpas e vergonhas que me assediavam num redemoinho de emoções vertiginosas. Eu vivia o aqui-agora como um angustiante ali-outrora, numa cadeia ininterrupta de déjà-vus. Todos os momentos já nasciam pretéritos. Me deu medo de voltar ao passado e por lá ficar pra sempre […]
O jeito era desejar-me um foda-se solitário e segurar aquela onda quietinho no meu canto, confiando que a piração teria um fim antes do derretimento total do meu psiquismo […]
Foquei de novo a Sossô em busca de alguma forma intuitiva de socorro. A pequena parecia singrar serena os mares interiores de sua própria viagem. Agarrei-me à sua presença levíssima tentando me manter à tona dos eventos. Sossô me parecia a cura de todos os males, a solução de todos os enigmas, menos de um único: ela própria. Foi quando comecei a sentir um plasma de sensualidade física a me subir da ponta dos dedos dos pés para as panturrilhas e coxas, e daí direto pros bagos e pra piroca, de onde se espalhava costas, barriga e peito acima, passando pela nuca até atingir a cabeça toda, por dentro e por fora, donde se derramava feito vapor de cálice de feiticeira corpo abaixo.
A visão da Sossô me trazia o sexo, e o sexo vinha me salvar - eis o mistério decifrado!” (p.89-91).

7 de maio de 2009

Espelhos

Eduardo Galeano, Uruguai, 2008

Trascrevo abaixo artigo publicado no jornal Página 12, da Argentina, no qual Eduardo Galeano fala sobre sobre sua mais nova obra, "Espelhos - Uma história quase universal".

O artigo original pode ser encontrado aqui. A tradução foi retirada daqui.

Paradoxo Andante

Cada dia, ao ler os jornais, assisto a uma aula de história.

Os jornais ensinam-me pelo que dizem e pelo que silenciam.

A história é um paradoxo andante. A contradição move-lhe as pernas. Talvez por isso os seus silêncios digam mais que as suas palavras e muitas vezes as suas palavras revelam, mentindo, a verdade.

Dentro em breve será publicado um livro meu chamado Espejos [Espelhos]. É algo assim como uma história universal, e desculpem o atrevimento. "Posso resistir a tudo, menos à tentação", dizia Oscar Wilde, e confesso que sucumbi à tentação de contar alguns episódios da aventura humana no mundo, do ponto de vista dos que não apareceram na foto.

Pode-se dizer que não se trata de factos muito conhecidos.

Resumo aqui alguns, apenas uns poucos.

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Quando foram desalojados do Paraíso, Adão e Eva mudaram-se para África, não para Paris.

Algum tempo depois, quando os seus filhos já se tinham lançado pelos caminhos do mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas.

Também a álgebra foi inventada no Iraque. Fundou-a Mohamed al Jwarizmi, há mil e duzentos anos, e as palavras algoritmo e algarismo derivam do seu nome.

Os nomes costumam não coincidir com o que nomeiam. No British Museum, por exemplo, as esculturas do Parténon chamam-se "mármores de Elgin", mas são mármores de Fídias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.

As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu, a bússola, a pólvora e a imprensa, tinham sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo o que a Europa reinventou.

Os hindus souberam antes de todos que a Terra era redonda e os maias tinham criado o calendário mais exacto de todos os tempos.

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Em 1493, o Vaticano presenteou a América à Espanha e obsequiou a África negra a Portugal, "para que as nações bárbaras sejam reduzidas à fé católica". Naquele tempo, a América tinha quinze vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra cem vezes mais que Portugal.

Tal como ordenara o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas. E muito.

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Tenochtitlán, o centro do império asteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade pedra por pedra e, com os escombros, tapou os canais por onde navegavam duzentas mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora, Tenochtitlán chama-se México DF. Por onde corria a água, correm agora os automóveis.

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O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagónia.

A avenida mais longa do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charruas.

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John Locke, o filósofo da liberdade, era accionista da Royal Africa Company, que comprava e vendia escravos.

No momento em que nascia o século XVIII, o primeiro dos bourbons, Felipe V, inaugurou o seu reinado assinando um contrato com o primo, o rei da França, para que a Compagnie de Guinée vendesse negros na América. Cada monarca ficava com 25 por cento dos lucros.

Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade.

Dois dos Pais Fundadores dos Estados Unidos desvaneceram-se na névoa da história oficial. Ninguém se recorda de Robert Carter nem de Gouverner Morris. A amnésia recompensou os seus actos. Carter foi a única personalidade eminente da independência que libertou os seus escravos. Morris, redactor da Constituição, opôs-se à cláusula que estabelecia que um escravo equivalia às três quintas partes de uma pessoa.

"O nascimento de uma nação" , a primeira super-produção de Hollywood, foi estreado em 1915, na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, aplaudiu-a de pé. Ele era o autor dos textos do filme, um hino racista de louvor ao Ku Klux Klan.

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Algumas datas:

Desde o ano 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. As suas vozes eram impuras, devido àquele caso da Eva e do pecado original.

No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, os chamados "ofícios vis", que até então acarretavam a perda da fidalguia.

Até ao ano de 1986 foi legal o castigo das crianças, nas escolas da Inglaterra, com correias, varas e cacetes.

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Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em 1793 a Revolução Francesa proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A militante revolucionária Olympia de Gouges propôs então a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou-lhe a cabeça.

Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos contra, um a favor.

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A imperatriz cristã Teodora nunca disse que era uma revolucionária, nem nada que se parecesse. Mas há mil e quinhentos anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio foram direitos das mulheres.

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O general Ulisses Grant, vencedor da guerra do Norte industrial contra o Sul escravagista, foi a seguir presidente dos Estados Unidos.

Em 1875, respondendo às pressões britânicas, respondeu:

- Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do proteccionismo tudo o que ele nos pode proporcionar, também nós adoptaremos a liberdade de comércio.

Assim sendo, em 2075, o país mais proteccionista do mundo adoptará a liberdade de comércio.

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"Lootie", ("Saquezinho") foi o primeiro cão pequinês a chegar à Europa.

Viajou para Londres em 1860. Os ingleses baptizaram-no assim porque era parte do saque extorquido à China no fim das longas guerras do ópio.

Vitória, a rainha narcotraficante, tinha imposto o ópio a tiros de canhão. A China foi convertida num país de drogados, em nome da liberdade, a liberdade de comércio.

Em nome da liberdade, a liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao final de uma guerra de cinco anos, este país, o único das Américas que não devia um centavo a ninguém, inaugurou a sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, vindo de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indemnização ao Brasil, à Argentina e ao Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos pelo trabalho que tinham tido a assassiná-lo.

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O Haiti também pagou uma enorme indemnização. Desde que em 1804 conquistou a sua independência, a nova nação arrasada teve de pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para expiar o pecado da sua liberdade.

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As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, o Supremo Tribunal de Justiça estendeu os direitos humanos às corporações privadas, e assim continua a ser.

Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos das suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo.

Então, Mark Twain, dirigente da Liga Anti-imperialista, propôs uma nova bandeira, com caveirinhas em vez de estrelas. E outro escritor, Ambroce Bierce, confirmou:

- A guerra é o caminho escolhido por Deus para nos ensinar geografia.

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Os campos de concentração nasceram em África. Os ingleses iniciaram a experiência, e os alemães desenvolveram-na. Depois disso, Hermann Göring aplicou na Alemanha o modelo que o seu pai tinha testado, em 1904, na Namíbia. Os mestres de Joseph Mengele tinham estudado, no campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negras.

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Em 1936, o Comité Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a selecção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a selecção da Áustria, o país natal do Führer. O Comité Olímpico anulou o jogo.

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Não faltaram amigos a Hitler. A Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-Cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e a classificação dos judeus, e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.

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Em 1953, explodiu o protesto operário na Alemanha comunista.

Trabalhadores tomaram as ruas e os tanques soviéticos dedicaram-se a calar-lhes a boca. Então Bertolt Brecht sugeriu: Não seria mais fácil que o governo dissolvesse o povo e elegesse outro?

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Operações de marketing. A opinião pública é o target. As guerras vendem-se mentindo, tal como se vendem os carros.

Em 1964, os Estados Unidos invadiram o Vietname, porque o Vietname tinha atacado dois navios dos Estados Unidos no Golfo de Tonkin. Quando a guerra já tinha trucidado uma multidão de vietnamitas, o ministro da Defesa, Robert McNamara, reconheceu que o ataque de Tonkin não existira.

Quarenta anos depois, a história repetiu-se no Iraque.

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Milhares de anos antes da invasão norte-americana levar a civilização ao Iraque, nesta terra bárbara nasceu o primeiro poema de amor na história mundial. Na língua suméria, escrito no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa e um pastor. Inanna, a deusa, amou nessa noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.

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Paradoxos andantes, paradoxos estimulantes:

O Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas esculturas da era colonial americana.

O livro de viagens de Marco Pólo, aventura da liberdade, foi escrito na prisão em Génova.

"Don Quixote de La Mancha", uma outra aventura da liberdade, nasceu na prisão de Sevilha.

Foram netos de escravos os negros que criaram o jazz, a mais livre das músicas.

Um dos melhores guitarristas de jazz, o cigano Django Reinhardt, só tinha dois dedos na sua mão esquerda.

Não tinha mãos Grimod de Reynière, o grande mestre da cozinha francesa. Com garfos escrevia, cozinhava e comia.

17 de fevereiro de 2009

O velho e o mar

Ernest Hemingway, 1952, EUA

O livro narra a saga de Santiago, um velho pescador que, incomodado com a maré de azar que o faz acumular 84 dias sem fisgar nada em seu anzol, resolve se aventurar sozinho em alto mar, em busca do peixe que mudará sua sorte.

"O que aconteceu é que acabou a minha sorte. Mas quem sabe? Talvez hoje ela volte. Cada dia é um novo dia. É melhor ter sorte. Mas eu prefiro fazer as coisas sempre bem. Então, se a sorte me sorrir, estou preparado" (p.35).

E como pode-se imaginar, o destino recompensou aquele que ousou transpor os limites. O animal mordeu a isca. Santiago estava agora diante do maior desafio de sua vida, um colossal peixe nunca antes visto por ele, experiente pescador. Nesse momento, começa o opressor embate entre um velho homem e a poderosa natureza.

"'A sua escolha inicial fora se esconder na águas escuras e profundas, para além de todos os laços, armadilhas e traições. A minha escolha fora ir procurá-lo onde jamais ninguém ousaria ir.' Sim, onde jamais alguém ousara ir. E agora estavam ligados um ao outro e assim se encontravam desde o meio-dia. E não havia ninguém para ajudar nem a um nem a outro"
(p.54).

Mas Santiago não é qualquer homem. É um herói. Não tem superpoderes, simplesmente é capaz de unir intelecto e determinação em alquimia que produz uma força sobre-humana.

"- Peixe - falou ele - não o largo enquanto viver"
(p.56).

"'Por que teria saltado? Quase que diria que veio à tona d'água só para mostrar-me como é grande. Agora já sei, seja lá como for', pensou o velho. 'Gostaria de lhe poder mostrar que espécie de homem sou eu. Mas, nesse caso, ele veria a cãibra que tenho. É melhor que ele julgue que valho mais para ter mais possibilidades do meu lado. Gostaria de ser aquele peixe e trocaria de bom grado a minha vontade e a minha inteligência para ter tudo o que ele tem'"
(p.67).

No mar, em plena luta aflita, o pescador se vê assolado pela solidão. Mas também encontra companhia.

"As primeiras estrelas mostravam-se no céu. Não sabia bem os nomes das estrelas, mas as conhecia e sabia que dentro de pouco tempo apareceriam todas e teria o conforto da companhia daquelas amigas tão distantes"
(p.76).

Em sua aventura, Santiago é um exemplo de superação, de esforço e paixão por seus objetivos. Sua história nos mostra a capacidade humana de desafiar e de sobrepujar as piores adversidades. E é exatamente nesse desafio que reside sua vitória, sua redenção, mesmo que a seguir a natureza cobre seu preço final.

"'Você está me matando, peixe', pensou o velho pescador. 'Mas tem o direito de fazê-lo. Nunca vi nada mais bonito, mais sereno ou mais nobre do que você, meu irmão. Venha daí e mate-me. Para mim tanto faz quem mate quem, por aqui'"
(p. 93).

"'Além disso', pensou, 'tudo mata tudo de uma maneira ou de outra. Pescar mata-me tal como me faz viver'"
(p.106).

Uma história de viver e de lutar, porque a vida só pode se desenrolar se estiver acompanhada do risco:

"- Repouse bem, pequena ave - aconselhou o velho. - Depois siga viagem e arrisque-se como qualquer homem, pássaro ou peixe"
(p.58).

Uma história do mar, esse misterioso universo que nos assombra e nos fascina:

"O velho pensava sempre no mar como sendo
la mar, que é como lhe chamam em espanhol quando verdadeiramente o querem bem. Às vezes aqueles que o amam lhe dão nomes vulgares, mas sempre como se fosse uma mulher. Alguns dos pescadores mais novos, aqueles que usam bóias como flutuadores para as suas linhas e têm barcos a motor, comprados quando os fígados dos tubarões valiam muito dinheiro, ao falarem do mar dizem el mar, que é masculino. Falam do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo. 'A lua afeta o mar tal como afeta as mulheres', refletiu o velho" (p.32).

3 de fevereiro de 2009

Romeu e Julieta

William Shakespeare, 1595-6, Inglaterra

O que dizer sobre esta famosíssima obra da literatura universal? Diria eu que trata-se de uma história de amor? Não é tudo... Diria que versa sobre a alma humana? Poderia... Entretanto, qualquer coisa que disser será precária se comparada à complexidade e riqueza do texto shakesperiano que, assim como as grandes obras do gênio humano, oferece-nos uma gama infinda de interpretações, níveis variados de leitura e uma profusão de sentimentos despertados. Shakespeare é um acontecimento e será tanto melhor aproveitado se for vivido em sua inteireza.

Essa pequena seleção de belíssimos trechos é mais do que suficiente para ratificar meu argumento:

O ódio dá muito
trabalho por aqui; mas mais, o amor.
Então, amor brigão! Ó ódio amoroso!
És tudo, sim; do nada foste criado
desde o princípio. Leviandade grave,
vaidade séria, caos imano e informe
de belas aparências, chumbo leve,
fumaça luminosa, chama fria,
saúde doente, sono sempre esperto,
que não é nunca o que é. Eis aí o amor
que eu sinto e que me causa apenas dor.
(Romeu - Ato I, Cena I)

O amor é dos suspiros a fumaça;
puro, é fogo que os olhos ameaça;
revolto, um mar de lágrimas de amantes...
Que mais será? Loucura temperada,
fel ingrato, doçura refinada.
(Romeu - Ato I, Cena I)

Mas o amor, em tamanha extremidade,
sabe fazer da dor felicidade.
(Prólogo - Ato II)

Meu inimigo é apenas o teu nome.
Continuarias sendo o que és, se acaso
Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio?
Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto,
nem parte alguma que pertença ao corpo.
Sê outro nome. Que há num simples nome?
O que chamamos rosa, sob uma outra
designação teria igual perfume.
Assim Romeu, se não tivesse o nome
de Romeu, conservara a tão preciosa
perfeição que dele é sem esse título.
Romeu, risca teu nome, e, em troca dele,
que não é parte alguma de ti mesmo,
fica comigo inteira.
(Julieta - Ato II, Cena II)

Essas violentas alegrias têm fim também violento,
falecendo no tempo, como a pólvora
e o fogo, que num beijo se consomem.
O mel mais delicioso é repugnante
por sua própria delícia, confundindo
com seu sabor o paladar mais ávido.
Tem, pois, moderação, que o vagaroso,
como o apressado, atrasam-se do pouso.
(Frei Lourenço - Ato II, Cena VI)

Mais rico o sentimento em conteúdo
do que em palavras, sente-se orgulhoso
com a própria essência, não com os ornamentos.
(Julieta - Ato II, Cena VI)

Ainda e sempre em lágrimas? Que é isso?
Sempre a chover? Num corpo pequenino,
o mar imitar queres, barco, ventos?
Pois teus olhos, a que de mar eu chamo,
fluxo e refluxo mostram, só de lágrimas;
teu corpo é o barco nesse mar salgado;
teus suspiros, os ventos, que em conflito
permanente com as lágrimas se encontram
e que hão de soçobrar-te o frágil corpo
tão maltratado pela tempestade,
se não fizer a tempo calmaria.
(Capuleto - Ato III, Cena V)

Quão doce deve ser o amor possuído
se assim tão venturoso é sua sombra!
(Romeu - Ato V, Cena I)

Triunfe o amor, e eis tudo resolvido.
(Julieta - Ato IV, Cena I)

20 de novembro de 2008

Os trabalhadores do mar

Victor Hugo, 1866, França

A obra é um riquíssimo repertório de sentidos sobre a relação entre o homem e o mar, com histórias de viagens e de territórios distantes. Narrativa épica que explora o oceano para também navegar pela alma humana, seus medos, anseios, potências e misérias.

O livro nos apresenta Gilliatt, um homem simples que, sozinho, luta contra o mar, contra os elementos e contra as possibilidades, suplantando a fome, a sede, o frio e a solidão, tudo em nome do amor. A Durande, o barco ao qual vai em socorro, e Deruchette, a jovem pela qual está apaixonado, são, respectivamente, cenário e idéia através dos quais Gilliatt transcende todos os limites humanos. Gilliatt é um gigante, um herói, um Ulisses, um "Jó Prometeu".

Se de um lado temos o mar, com toda sua grandeza e com todo assombro que pode provocar, do outro temos o homem, finito e precário, mas disposto a lutar. São dois oceanos juntos nessa fascinante história escrita no século XIX.

Transcrevo algumas passagens brilhantes:

O mistério das coisas
"Nada mais perturbador do que ver manobrar a difusão das forças no insondável e no ilimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a água infatigável, as nuvens que parecem afadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz este perpétuo tremor? Que constróem estes ventos? Que levantam estes abalos? Em que se ocupam os choques, os soluços, os gritos? Que faz todo esse tumulto? O fluxo e refluxo dessas questões é eterno como a maré" (p.230).

Natureza, homem e máquina
"O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de máquinas. As forças são máquinas infinitas, as máquinas são forças limitadas. Entre os dois organismos, um inesgotável, outro inteligente, trava-se o combate que se chama navegação.
Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Também o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não há força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerário.
Enquanto se não descobre a lei, prossegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma espécie de vitória perpétua que o gênio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admirável porque disciplina o navio. Diminui a obediência ao vento e aumenta a obediência ao homem" (p.146).

Vida e morte
"Toda natureza devora ou é devorada. As presas mastigam-se umas às outras [...] Todas as criaturas entram umas nas outras. Podridão é alimentação. Assustadora limpeza do globo. O homem, carnívoro, também é coveiro. A nossa vida é feita de morte. Tal é a lei terrífica. Somos sepulcros" (p.320).

Viver é arriscar
"Nenhum pássaro ousaria chocar, nenhum ovo ousaria abrir, nenhuma flor ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum coração ousaria amar, nenhum espírito ousaria voar, se pensasse nas sinistras emboscadas do abismo" (p.321).

Viver é imprevisível
"O homem é o paciente dos acontecimentos. A vida é um perpétuo sucesso, imposto ao homem. O homem não sabe de que lado virá a brusca descida do acaso. As catástofres e as felicidades entram e saem como personagens inesperadas. Têm a sua fé, a sua órbita, a sua gravitação fora do homem. A virtude não traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a consciência tem uma lógica, a sorte tem outra; nenhuma coincidência. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropelo. A consciência é a linha reta, a vida é o turbilhão. O turbilhão atira à cabeça do homem caos negros e céus azuis. A sorte não tem tem a arte das transições. Às vezes a vida anda tão depressa que o homem mal distingue o intervalo de uma peripécia a outra e o laço de ontem a hoje" (p.379).

A força da impotência
"Ser impotente é uma força. Diante das nossas duas grandes cegueiras, o destino e a natureza, é na sua impotência que o homem acha o ponto de apoio, a oração.
O homem socorre-se do próprio medo; pede auxílio ao pavor; a ansiedade aconselha o ajoelhar.
A oração, enorme força própria da alma, é da mesma espécie que o mistério. A oração dirige-se à magnanimidade das trevas; a oração contempla o mistério com os olhos da sombra, e, diante da fixidez poderosa desse olhar súplice, sente-se um desarmamento possível no ignoto.
Essa possibilidade entrevista é já uma consolação" (p.343-344).

Corpo e alma
"O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne" (p.43).

A perseverança transcende o ordinário
"O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homem há dentro. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências picam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão dos pensamentos tímidos. Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: - Perseverança. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo. Insensata é a cruz; vem daí a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtém o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não inclui o parar. Da queda sai a ascenção. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Perecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama o martírio" (p.255).

26 de abril de 2008

Escravidão e universo cultural na colônia (não-ficção)

Eduardo França Paiva, 2001, Brasil

Logo na orelha da obra, um breve texto do historiador francês, Serge Gruzisnky, faz interessante apresentação da pesquisa elaborada por Eduardo França Paiva. Copio um trecho:

“Como os homens e as mulheres submetidos à escravidão viviam essa condição? Qual podia ser sua margem de manobra? Qual era o lugar dos forros nessa sociedade, de que maneira e por qual preço conquistavam sua liberdade? Quais eram as relações dos escravos e dos forros com os brancos, donos de escravos, quer fossem ricos ou pouco fortunados?
Para responder a estas perguntas e romper os clichês que ainda embaraçam (obstruem) as nossas memórias e historiografias, Eduardo França Paiva explora incansavelmente os arquivos mineiros do século XVIII. [...] Ao mergulhar no laboratório sociocultural extraordinário que constituiu Minas Gerais, o leitor descobrirá uma sociedade complexa, móvel, cheia de contradições, no seio da qual negros e mulatos, homens e mulheres, aparecem integralmente como protagonistas da história do século XVIII”.

Escravidão e universo cultural na colônia – Minas Gerais, 1716-1789 é um trabalho referência da nova historiografia sobre a escravidão no Brasil. A obra lança um novo olhar para a sociedade escravista, enriquecendo nossa compreensão sobre as relações sociais envolvidas nesse contexto. Longe de querer negar a escravidão ou de querer torná-la um palco de amenidades, o objetivo de Eduardo França Paiva é, como já adiantou Gruzisnky, sair do lugar comum e perceber que tanto escravos como senhores foram sujeitos da história na qual viveram e que a dicotomia dominante/dominado explica muito pouco dessa história.

“É através de legados ricos como os deixados nesses papéis [os testamentos e inventários pesquisados pelo autor] que se torna possível, por exemplo, o ataque ao que venho chamando de imaginário do tronco, tão arraigado no entendimento sobre a escravidão brasileira. Isto é, ao imaginário sobre a escravidão e os escravos, construído sobre mitos, exageros e versões ideologizadas ou moldadas pelo pragmatismo político. Versões que de forma caricatural condenam a posteriori os escravos ao trabalho desumano e intenso ou ao castigo corporal, como se a vida desses agentes históricos, com exceção dos que se rebelavam, fugiam ou se aquilombavam, se restringisse a essas balizas. No entanto, os libertos testadores demonstraram em seus relatos que o tronco e os outros instrumentos de coerção física e moral não tiveram, pelo menos em áreas urbanizadas do setecentos, emprego tão intenso e corriqueiro quanto se acredita generalizadamente hoje. Este tipo de violência fora substituído por outros, como as restrições à ascensão social dos forros e as interdições de variada natureza impostas indistintamente a cativos, a libertos e a seus descendentes. Em muitas outras ocasiões o controle violento dos mancípios foi substituído por acordos que interessavam a proprietários e a propriedades e que, freqüentemente, reverteram-se em alforrias individuais e coletivas. E não se tratava de agrupamentos reduzidos numericamente. Ao contrário, refiro-me à maior aglomeração de escravos e de libertos entre as capitanias do Brasil e uma das mais importantes, se não a mais importante, de todo o Novo Mundo escravista, no século XVIII” (p. 24-25).

Sobre uma classe intermediária urbana nas Minas do século XVIII
“O setecentos mineiro é realmente um marco especial para todo o império português. A riqueza era acentuadamente concentrada em poucas mãos, a miséria fazia parte da vida cotidiana dos núcleos urbanos e de áreas rurais, mas conformara-se uma classe intermediária urbana que tornava aquela sociedade diferenciada. A importância desse grupo provinha diretamente da dimensão quantitativa atingida por ele, assim como de seu poder de influência. Além disso, seus integrantes produziam riqueza, pagavam impostos e eram consumidores pertinazes. Já o sabia bem o Conde das Galveas, governador das Minas, em 1732, quando advertia que o trabalho dos forros rendia impostos necessários ao rei. Exatamente os forros, pois eram eles que constituíam parcela respeitável dessa camada intermediária” (p.26).

Uma economia diversificada
“Livres, libertos e escravos compunham a sociedade que se instalara no que antigamente era chamado de sertões. [...] Mas não era apenas isso. Eles compunham, todos, embora com importância diferenciada, o mercado, o grande, dinâmico e diverso mercado emergido nas Minas do setecentos. Através dessa enorme demanda comercial foram estreitados os contatos entre a Colônia e longínquas praças: Índia, Europa, África. Às Minas chegaram tecidos, pedraria e contas, louças, panelas e utensílios domésticos, calçados, chapéus, luvas, lenços, meias e ornamentos variados, além de certos alimentos e bebidas de proveniência diversificada” (p.26-27).

Uma sociedade complexa
“Chegou, também, gente oriunda de muitos lugares distantes para aí se estabelecer. Os encontros pessoais, materiais e culturais foram inevitáveis e corriqueiros. Resultaram na aproximação entre universos geograficamente afastados, em hibridismos e em impermeabilidades, em (re)apropriações, em adaptações e em sobreposição de representações e de práticas culturais. Por conta disso o estudo pretende contribuir para reflexões historiográficas que abarquem extensão ampla” (p.27).

A pesquisa
Eduardo França Paiva estuda, ao todo, 859 testamentos e inventários de homens e mulheres originários de várias partes do Brasil e do mundo ou mesmo nascidos em Minas. O grupo é dividido entre homens livres, homens forros, mulheres livres e mulheres forras.

Entre as conclusões que o autor chegou após a análise desses documentos está o fato de que, mesmo sendo a ascensão social um privilégio dos brancos, o enriquecimento dos negros libertos era possível. Destaque para o sucesso da mulher nesse cenário:

“A ascensão social era privilégio, portanto, de alguns brancos e isso era garantido pelas leis e ordenações que vigoraram na América portuguesa. [...] Mas, quanto ao enriquecimento de libertos e de seus descendentes, isto não foi possível interditar. O fenômeno era muito mais freqüente, claro, nas regiões mais urbanizadas. A possibilidade de ascensão econômica foi concretizada por vários desses antigos escravos e por seus filhos e netos nascidos livres, embora as grandes fortunas coloniais permanecessem entre alvas mãos. [...] Entre os que lograram enriquecer, as mulheres constituíram a maioria, assim como formavam, também, a parcela mais numerosa dos alforriados” (p.67).

Liberdade e preconceito
“Proprietários de escravos, às vezes enriquecidos, libertos do cativeiro, mas sempre estigmatizados pela cor da pele, que denunciava o passado de submissão, a origem presa a grilhões e a indiscutível condição de inferioridade intelectual e cultural. Os forros, mesmos os que experimentavam ascensão econômica, não escapavam da discriminação cultivada abertamente ou de maneira camuflada pela sociedade colonial. De toda forma, o fato de terem se libertado e de terem formado um enorme contingente populacional – algo próximo a 120.000 indivíduos, no final do século XVIII, apenas nas Minas – já é o suficiente para ajuntá-los em agrupamento distinto” (p.68). Para efeito de comparação, a população de escravos nesse período era de cerca de 170.000.

O imaginário do tronco
O autor nos relata a distorcida compreensão da sociedade escravista que vem imperando no senso comum e que passou a ser combatida pela historiografia brasileira produzida a partir da década de 1980:

“A imagem de violência física empregada incessantemente sobre os escravos transformava as relações escravistas coloniais em contatos sempre antagônicos, marcados pela desconfiança, pela revolta e pelo medo. Não obstante, reconheciam-se os cativos como agentes históricos [...] apenas quando se revoltavam, fugiam ou matavam, desconsiderando qualquer outra estratégia de resistência menos evidente que essas. As escravas, sempre, eram exploradas sexualmente e quase nada faziam além do serviço doméstico e da reprodução biológica. A família, entendida sempre a partir de um modelo europeu e cristão, não existia entre os escravos no Brasil, e o mais comum era haver um ou mais escravos reprodutores nas senzalas, responsáveis pela fecundação das fêmeas. Os libertos, quando mencionados, sempre ganhavam e jamais conquistavam suas cartas de alforria. [...] Essas e tantas outras 'verdades' sobre a escravidão tanto povoaram e continuam povoando o imaginário brasileiro” (p.85-86).

A família escrava
Contrariando essas verdades distorcidas, Eduardo França Paiva nos mostra que a formação de famílias entre escravos era um acontecimento bastante comum no seio da sociedade mineira dos setecentos. Na verdade, essa prática, era interessante tanto para senhores como para cativos.

“Sem dúvida alguma, a formação de famílias escravas foi estratégia aproveitada tanto pelos escravos quanto pelos senhores. Se ela representava proteção e solidariedade para os primeiros, também significava maior e melhor controle sobre a escravaria e sobre a sociedade escravista colonial para os segundos” (p.150).

De acordo com o autor, a freqüente presença de famílias escravas promoveu uma relativa estabilidade das relações cotidianas entre proprietários e propriedades. Ela explicaria uma baixa referência a fugas, castigos e torturas, e também estaria relacionada à longevidade dos escravos em Minas Gerais.

As alforrias nas Minas
E foram essas formas flexíveis de convívio entre senhores e cativos que favoreceram acordos que resultavam em alforrias. O autor descreve o interessante processo da coartação, muito usado como meio para a liberdade, que consistia na compra da alforria através do pagamento em parcelas e durante determinado tempo, ao fim do qual a liberdade era alcançada. De acordo com França Paiva, o processo não era regulamentado pela legislação em vigor, mas tratava-se de prática e de direito costumeiros.

“Contrapondo-se, portanto, à idéia de que as alforrias dependiam apenas da boa vontade dos proprietários, os processos de coartação demonstram bem como os maiores interessados, os escravos, conseguiam intervir nessas histórias. Eles ajudaram a moldá-las, assim como participaram efetivamente na construção da própria sociedade escravista colonial” (p.168).

Uma ressalva importante
“Isso não significa, evidentemente, que as relações escravistas nas Minas ou no Brasil tenham sido doces, amenas e não tenham experimentado tensões, conflitos e desacordos. O exagero e o estereótipo, de todas as formas como são empregados, trazem grande prejuízo ao conhecimento” (p.156).

11 de abril de 2008

O queijo e os vermes (não-ficção)

Carlo Ginzburg, 1976, Itália

A obra é um dos mais importantes trabalhos da chamada micro-história, uma vertente historiográfica que defende uma delimitação temática extremamente específica, inclusive em termos de espacialidade e de temporalidade:

“Numa escala de observação reduzida, a análise desenvolve-se a partir de uma exploração exaustiva das fontes, envolvendo a descrição etnográfica e preocupando-se com uma narrativa literária. A micro-história contempla temáticas ligadas ao cotidiano de comunidades específicas (geográfica ou sociologicamente), às situações-limite e às biografias ligadas à reconstituição de microcontextos ou dedicadas a personagens extremos, geralmente figuras anônimas, que passariam despercebidas na multidão” (Wikipedia, acessado em 11/4/2008).

Um personagem in-comum
Em “O queijo e os vermes”, Ginzburg foca sua lente em um personagem aparentemente comum, um camponês europeu do século XVI, mais especificamente um moleiro italiano chamado Domenico Scandella e conhecido como Menocchio.

No entanto, Menocchio tinha algumas características incomuns, como saber ler e escrever. E foi essa habilidade, aliada a uma forte curiosidade e atitude questionadora, que fez desse “simples” moleiro um alvo para a Inquisição – Menocchio ousou criar e expor idéias heterodoxas sobre Deus e fé e acabou sendo processado, preso e morto como herege.

Algumas dessas idéias, nas palavras do próprio moleiro:

“[...] 'Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento, e foi feito senhor com quatro capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e Rafael' [...]" (p.43).

“[...] 'E me parece que na nossa leio papa, os cardeais, os padres são tão grandes e ricos, que tudo pertence à Igreja e aos padres. Eles arruinam os pobres' [...]" (p.47).

“[...] 'A majestade de Deus distribuiu o Espírito Santo pra todos: cristãos, heréticos, turcos, judeus, tem a mesma consideração por todos, e de algum modo todos se salvarão [...] Quem pensa que sabe muito é quem nada sabe. [...] Acho que a lei e os mandamentos da Igreja são só mercadorias e que se deve viver acima disso' [...]" (p.48).

“[...] 'Eu penso que que cada um acha que sua fé seja a melhor, mas não se sabe qual é a melhor' [...]" (p.101).

Um clássico
A partir do estudo dos autos de condenação do moleiro italiano, Ginzburg esboça uma teoria bem mais ampla sobre as relações e trocas entre a cultura de massas e a cultura das classes altas (circularidade cultural), e sobre os vestígios do pensamento pagão ainda em fins da idade média.

O brilhante trabalho de reconstrução do cotidiano e das idéias de Menocchio e a abordagem de importantes questões metodológicas fazem de “O queijo e os vermes” um marco da reflexão sobre a escrita da história, suas dificuldades, desafios e possibilidades.

Leitura imperdível!

6 de abril de 2008

História & Livro e Leitura (não-ficção)

André Belo, 2002, Brasil

“Este livro é uma reflexão em torno da história do livro. Não se trata, porém, de apresentar aqui ao leitor uma descrição de como foi escrito e feito o livro ao longo dos tempos [...] Trata-se antes de falar do livro como um objeto que tem uma história e de mostrar como essa história tem sido contada pelos historiadores” (p.15), nos informa o autor.

Nos dois primeiros capítulos da obra, André Belo faz um pouco da história da história do livro, “vendo como ela se prolongou numa história da leitura e como ela se tornou num terreno de diálogo entre diferentes áreas científicas e acadêmicas” (p.15). O atual momento da pesquisa na área é abordado no terceiro e último capítulo, no qual o autor revela que “a investigação atual se projeta bem para além das suas fronteiras tradicionais, limitadas ao livro impresso e à história moderna européia, abrangendo diferentes regiões geográficas, cronologias, suportes da escrita e meios de comunicação” (p.15).

O impacto da tipografia
De acordo com André Belo, o debate sobre a importância da invenção da tipografia nasceu com a publicação da obra A revolução da cultura impressa, da historiadora norte-americana Elisabeth Eisenstein.

“[...] mais do que um mero agente de uma difusão alargada do escrito e da imagem, a imprensa foi responsável, segundo Eisenstein, por alterações qualitativas nas operações intelectuais associadas à leitura e à compreensão dos textos. [...] Para Eisenstein, o objeto impresso define uma cultura original, qualitativamente diferente da cultura manuscrita que existia anteriormente” (p.23).

Na argumentação de André Belo, as idéias de Eisenstein davam continuidade, no meio historiográfico, às teses defendidas pelo teórico da cultura e da comunicação de massas Marshal McLuhan.

“Em A Galáxia de Gutenberg (MCLUHAN, 1977/1962), esse autor colocou em oposição diferentes modos de comunicação ao longo da história das sociedades: na Antiguidade e na Idade Média existiu baseada no manuscrito e na oralidade; nesse ambiente, a leitura em voz alta e a audição coletiva eram o modo de transmissão e recepção dos discursos; a ela seguiu-se uma cultura do livro impresso, em que a troca de idéias se fez predominantemente por meio da leitura individual, feita em silêncio, em que a visão veio substituir a audição e a voz como sentido dominante na comunicação. Segundo esse autor, a invenção de Gutenberg constituiu uma ruptura fundamental na história da cultura, dando origem a um novo modo de percepção, a do 'homem tipográfico'. As teses de McLuhan, que tinham por trás a idéia fundamental de que o 'meio [de comunicação] é a mensagem', foram desenvolvidas no preciso momento em que a televisão, o rádio e o telefone se afirmavam como meios de comunicação de massa. Para o autor, o seu aparecimento marcava o início do fim da galáxia de Gutenberg, isto é, o fim da era do predomínio da leitura visual e a entrada numa nova constelação da comunicação em que, por meio da convivência permanente entre texto, imagem e som, os sentidos associados à oralidade recuperariam importância” (p.24).

Mas André Belo apresenta argumentos que representam importantes ressalvas à possível dicotomia entre uma era do manuscrito e uma outra, a era do impresso.

“A idéia de que existiu uma ruptura entre a era do manuscrito e a era do impresso tem sido combatida por vários autores, com destaque para [...] Roger Chartier. [...] Chartier fala também de uma 'cultura do impresso' nascida com a invenção de Gutenberg. No entanto, ela não deve ser colocada em oposição a uma cultura do manuscrito, antes deve ser considerada sua herdeira. Se a imprensa representa uma alteração fundamental nas capacidades técnicas de reprodução dos textos, ela perde seu caráter revolucionário quando comparada com outras mudanças consideradas por Chartier tão ou mais decisivas, como é o caso do aparecimento do livro com a forma que conhecemos ainda hoje, verificado entre os séculos II e IV da era cristã. Antes da tipografia, com efeito, o livro era escrito e copiado à mão, era normalmente menos portátil do que os livros atuais, mas já era um códice, isto é, um conjunto de cadernos costurados uns aos outros e encadernados. Na opinião de Chartier, o que permaneceu no livro depois de Gutenberg foi mais importante do que o que mudou: os sinais que facilitam a orientação do leitor no interior do livro (enumeração de páginas, de colunas ou linhas) e no interior de cada página (títulos de capítulos e letras iniciais ornamentadas) nasceram no tempo do livro manuscrito, o mesmo acontecendo com os índices alfabéticos ou por assuntos. A imprensa não criou um objeto novo e não obrigou a novos gestos da parte do leitor, ao contrário do que aconteceu com o aparecimento do códice (CHARTIER, 1994). Ela também não alterou, pelo menos inicialmente, o conteúdo dos textos disponíveis: os Padres da Igreja, os clássicos latinos e gregos, os textos religiosos ou laicos de autores consagrados foram os primeiros livros impressos” (p.24-23).

O sucesso do códice quase nos faz esquecer, prossegue o autor, que o livro teve outros formatos – rolos de papiro ou de pergaminho (cuja materialidade implicava num tipo de leitura diverso da do códice, que facilita a navegação dentro do texto); tabuinhas de argila – e que a escrita teve outros suportes – tecidos, conchas, cerâmica, marfim, folhas de palmeira.

“Cada uma dessas diferentes formas de livro implicou, ao longo de uma história já com alguns milênios, diversos modos de escrever e ler. Obrigou ao uso de um determinado tipo de instrumento, a uma certa postura corporal, a um certo modo de organizar o texto (ou a imagem), dependendo da textura do suporte ou de seu formato” (p.27).

Técnica x Cultura
Nessa altura, André Belo propõe as seguintes questões: “qual a relação entre as mudanças tecnológicas e as mudanças culturais? Podemos dizer que são sobretudo as inovações técnicas que produzem transformações no modo de pensar, de ler e de conhecer ou, pelo contrário, que são necessidades culturais e sociais que dão origem ao aparecimento de novas tecnologias de difusão do saber?” (p.28).

“Chartier, uma vez mais, generaliza: a invenção da tipografia não revolucionou a forma do livro, nem seu conteúdo, nem a maneira de ler. Não podemos dizer que as inovações na técnica de reprodução dos textos produzam, por si só, revoluções na relação com o escrito. Na longa história do livro, as grandes alterações foram produzidas por transformações culturais e sociais mais profundas. [...] contra o que considera um 'determinismo tecnológico', Chartier afirma que as técnicas não existem para além do que os seus produtores e utilizadores fazem delas (CHARTIER, 2000, p. 31). No Ocidente, a imprensa, como inovação no modo de reproduzir os textos, necessitou de várias outras condições para se afirmar, a começar pela disponibilidade de uma matéria-prima fundamental como o papel. Contrariamente, na China do século XI e na Coréia do século XIII, os caracteres móveis, em terracota e em metal já eram conhecidos, mas a escala de sua utilização permaneceu reduzida por razões políticas e culturais (Idem, 1994). Na primeira metade do século XIX, a imprensa conheceu sua primeira industrialização, com a introdução da tipografia mecânica a vapor e da máquina de papel contínuo. Mas as tiragens dos livros e periódicos permaneceram modestas diante das novas capacidades produtivas. Só na segunda metade do século XIX se verificou o aparecimento da grande tiragem nos jornais e outras publicações de baixo custo, trazendo consigo importantes novidades no número de leitores atingidos e nos tipos de gêneros publicados. Isto não aconteceu apenas por razões técnicas, mas também por causa de fatores econômicos e decisões editoriais, por sua vez impossíveis de obter sucesso sem o apoio de outros fatores culturais, como o desenvolvimento da escolarização (Idem, 1995)” (p.29 e 30).

No entanto, alerta André Belo, essa perspectiva de Chartier apresenta um inconveniente, qual seja, o risco de diminuirmos o impacto social que a imprensa gerou e sua capacidade para ser um agente de mudança. Em nenhuma hipótese, a importância do surgimento da imprensa pode ser desconsiderada.

“Mesmo que o livro manuscrito tenha permanecido durante bastante tempo como modelo seguido pelo livro impresso, a nova técnica de reprodução dos textos multiplicou claramente as possibilidades de difusão geográfica das obras relativamente à cópia manuscrita. E também as suas capacidades de conservação: a multiplicação de uma obra em centenas ou milhares de exemplares garantia, bem melhor do que o manuscrito, a sua sobrevivência à passagem do tempo” (p.30 e 31).

O que é a história do livro e da leitura?
“Para a revista Book History, [...] a história do livro abrange 'toda a história da comunicação escrita: a criação, a disseminação, os usos do manuscrito e do impresso em qualquer suporte, incluindo livros, jornais periódicos, manuscritos e outros objetos impressos de vida efêmera'. O leque de interesses da revista estende-se assim aos seguintes domínios: 'história social, cultural e econômica da autoria, publicação, impressão, artes gráficas, direitos de autor, censura, comércio e a distribuição de livros, bibliotecas, competências de leitura e escrita, crítica literária, hábitos de leitura, teoria da recepção literária'” (p. 37).

“No entender de Robert Darnton, [...] o objetivo da história do livro é 'compreender como as idéias foram transmitidas através da imprensa e como a exposição à palavra impressa afetou o pensamento e o comportamento da humanidade durante os últimos quinhentos anos” (p.38).

“Donald F. McKenzie [...] define a especialidade como uma 'sociologia dos textos'. Estudar o passado do livro é estudar o seu conteúdo considerando toda a vasta gama de realidades sociais que os textos envolvem e com as quais interagem, em cada momento de sua produção, transmissão e consumo (MCKENZIE, 1986, p. 6-7)” (p. 38).

“Por fim, para o Institut d'Historie du Livre, um órgão francês que reúne várias instituições ligadas ao livro, entre universidades, museus e bibliotecas, o objeto alargado de uma história do livro é a comunicação escrita. Trata-se de uma área totalmente interdisciplinar em que dialogam a história, a sociologia, a antropologia e as ciências da linguagem e da informação” (p.38-39).

Uma síntese
“Essas definições são razoavelmente convergentes num aspecto essencial: da história do livro atual faz parte muito mais do que o simples estudo dos procedimentos técnicos de escrita e reprodução de um livro até ele chegar ao leitor [...] Mais do que apenas o livro como objeto material, essa história compreende a comunicação e todos os processos sociais, culturais e literários que os textos afetam e envolvem. Ela integra um conjunto de disciplinas específicas de tal maneira vasto que é impossível resumi-lo aqui” (p.39).

O leitor reescreve o livro
André Belo nos apresenta também o problema inovador da pesquisa sobre as diferentes modalidades de consumo do livro pelos leitores, abordagem que trouxe entendimentos inovadores como o fato de que a leitura é (e sempre foi) uma prática acompanhada socialmente (ou seja, não é uma prática solitária, sofrendo condicionamentos) e a existência de uma pluralidade de direções de leitura:

“O leitor, de certa maneira, reescreve o texto que lê. Por isso, a página impressa não é uma letra morta: ela é o lugar onde se produz o encontro, sempre diferente, entre a palavra já escrita e os novos sentidos que os leitores lhe vão dando. Como escreveu Jorge Luís Borges, uma literatura distingue-se de uma outra menos pela letra do texto do que pela forma como ela é lida. Essa idéia ajusta-se perfeitamente a uma interrogação histórica: enquanto o texto permanece uma unidade fixa, os leitores em diferentes épocas vão-se apropriando dele de forma plural; como afirmou Levenson, citado por Bordieu, 'um livro muda pelo fato de não mudar enquanto o mundo muda' (BORDIEU e CHARTIER, 1985, p. 236)” (p.52-53).

Mais adiante, depois de elaborar um apanhado de possíveis fontes de pesquisa e problematizar questões metodológicas no campo da história do livro e da leitura, André Belo faz uma interessante observação sobre o papel do leitor no universo dos textos: “O sentido desse texto, de qualquer texto, depende sempre da leitura que dele será feita” (p.103).

2 de abril de 2008

História & Fotografia (não-ficção)

Maria Eliza Linhares Borges, 2003, Brasil

Contribuir para um diálogo fértil entre História e Fotografia, essa é a intenção principal deste texto que aborda critérios teórico-metodológicos acerca da utilização de imagens fotográficas no campo da análise histórica.

O livro analisa, inicialmente, as razões que “levaram uma parcela significativa da comunidade de historiadores do século XIX a estabelecer uma hierarquia de importância entre as fontes de pesquisa histórica, a classificar as fontes visuais como documentos de pesquisa de segunda categoria e, finalmente, a não incluir a fotografia no rol dos documentos de pesquisa em História” (p.12).

Em seguida, a autora busca mostrar que, “embora rejeitada como fonte de pesquisa histórica, a fotografia introduziu um novo tipo de ver e dar a ver a diversidade do mundo moderno, rapidamente incorporado por homens e mulheres do século XIX e das primeiras décadas do século XX. Sem pretender desenvolver uma história da fotografia, elegemos algumas representações fotográficas de maior expressão no século para, a partir delas, buscarmos compreender os usos e as funções sociais a elas atribuídas pelos fotógrafos, profissionais e amadores, dos anos oitocentos. Simultaneamente a esse descortinar do olhar fotográfico introduzimos alguns dos critérios que hoje orientam a análise dessa importante fonte de pesquisa histórica” (p.12-13).

Por fim, Maria Eliza trata da relação hoje existente entre a história-conhecimento e o documento fotográfico, fazendo uma reflexão sobre a natureza da linguagem fotográfica e realizando “uma breve incursão sobre as viagens fotográficas, de estrangeiros e nacionais, através do Brasil imperial e republicano” (p.13).

A fotografia para a História Cultural
Para o novo paradigma histórico da História Cultural, a questão não é propor a utilização da fotografia como recurso ilustrativo do texto histórico, tampouco como documento que tem a pretensão de espelhar fielmente a realidade (ilusão bastante comum quando se fala de imagens fotográficas). A fotografia agora ascende à condição de fonte, de objeto capaz de oferecer informações importantes para a elaboração de interpretações históricas.

Maria Eliza descreve esse novo papel da imagem para a historiografia contemporânea:

“Quando as imagens visuais, dentre elas a fotografia, são utilizadas como fontes de pesquisa histórica, é porque funcionam como mediadoras e não como reflexo de um dado universo sociocultural. Integram um sistema de significação que não pode ser reduzido ao nível das crenças formais e conscientes. Pertencem à ordem do simbólico, da linguagem metafórica. São portadoras de estilos cognitivos próprios” (p.18-19).

“[...] as imagens fotográficas, assim como as literárias e sonoras, propõem uma hermenêutica sobre as práticas sociais e suas representações. Funcionam como sinais de orientação, como linguagens. Quando utilizadas com fins compreensivos e explicativos, elas demandam não apenas o emprego de metodologias afinadas com seus estilos cognitivos – que ajudam a ler e interpretar suas ambigüidades e seus silêncios – como também o cruzamento com outros tipos de documentos” (p.72).

“Ao lidar com as imagens visuais, o historiador as encara como um documento, como uma construção cultural, cuja confecção e difusão têm uma história que não pode ser desconhecida pela análise histórica. Sabe que as formas e os conteúdos imagéticos podem sofrer alterações, voluntárias ou não” (p.81).

A imagem é fixa, o sentido não é
“Hoje não mais se duvida da natureza polissêmica da imagem, da variabilidade de sentidos de suas formas de produção, emissão e recepção. Sabe-se que uma imagem visual é uma forma simbólica cujo significado não existe per si, quer dizer, ''lá dentro', como coisa dada que pré-existe ao olhar, à intenção de quem o produz'. Vista sob essa ótica, ela deixa de ser espelho ou duplicação do real, como queriam os historiadores da historiografia metódica. Apresenta-se como uma linguagem que não é verdadeira nem falsa. Seus discursos sinalizam lógicas diferenciadas de organização do pensamento, de ordenação dos espaços sociais e de medição dos tempos culturais. Constituem modos específicos de articular tradição e modernidade. Por tudo isso, sabe-se que uma dada imagem é uma representação do mundo que varia de acordo com os códigos culturais de quem a produz” (p.80).

30 de março de 2008

O que é arte? (não-ficção)

Jorge Coli, 1981, Brasil

Encontrar uma definição completa e acabada para a arte é tarefa vã, alerta Jorge Coli. Mais apropriado, indica o autor, seria descobrir critérios que atribuem a um um objeto o estatuto de arte, ou seja, quais forças em nossa cultura determinam a atribuição do qualificativo de arte a um objeto.

“Para decidir o que é ou não arte, nossa cultura possui instrumentos específicos. Um deles, essencial, é o discurso sobre o objeto artístico, ao qual reconhecemos competência e autoridade. Esse discurso é o que proferem o crítico, o historiador da arte, o perito, o conservador de museu. São eles que conferem o estatuto de arte a um objeto. Nossa cultura também prevê locais específicos onde a arte pode manifestar-se, quer dizer, locais que também dão estatuto de arte a um objeto. Num museu, numa galeria, sei de antemão que encontrarei obras de arte; num 'cinema de arte', filmes que escapam à 'banalidade' dos circuitos normais; numa sala de concertos, música 'erudita', etc. Esses locais garantem-me assim o rótulo 'arte' às coisas que apresentam, enobrecendo-as” (p.10-11 - grifo meu).

Mas as coisas não são tão simples assim, avisa Coli. Ele lembra que apesar de a autoridade do discurso da crítica especializada ser poderoso, o julgamento que ela profere nunca será absoluto e universal. Ao contrário de um discurso técnico, que analisa aspectos objetivos em determinada situação, os “discursos que determinam o estatuto da arte e o valor de um objeto artístico, são de outra natureza, mais complexa, mais arbitrária”, esclarece o autor. Coli nos prova, através de diversos exemplos, que a crítica tem que ser relativizada como um discurso histórico, pertencente a um tempo e um espaço.

Algumas considerações interessantes sobre o problema:

“[...] a autoridade institucional do discurso competente é forte, mas inconstante e contraditória, e não nos permite segurança no interior do universo das artes” (p.22).

“[...] o importante é termos em mente que o estatuto da arte não parte de uma definição abstrata, lógica ou teórica, do conceito, mas de atribuições feitas por instrumentos de nossa cultura, dignificando os objetos sobre os quais ela recai” (p.11).

“A arte instala-se em nosso mundo por meio do aparato cultural que envolve os objetos: o discurso, o local, as atitudes de admiração, etc” (p.12).

Estilo
“Os discursos sobre as artes parecem, com freqüência, ter a nostalgia do rigor científico, a vontade de atingir uma objetividade de análise que lhes garanta as conclusões. E na história do discurso, na história da crítica, na história da história da arte, constantemente encontramos esforços para atingir algumas bases sólidas sobre as quais se possa apoiar uma construção rigorosa.
O instrumento primeiro e mais freqüente desse desejo de rigor é o das categorias de classificações estilísticas. Se conseguirmos definir estilos, no interior dos quais encaixamos a totalidade da produção artística, começamos a pisar terreno mais seguro. E a palavra sobre as artes tentará determinar essas classificações gerais” (p.24-25 - grifo meu).

Para Coli, a idéia de estilo está ligada à idéia de recorrência, de constantes. O conceito “repousa sobre o princípio de uma inter-relação de constantes formais no interior da obra de arte”, acrescenta. Dessa forma, a palavra estilo pode designar tanto o estilo pessoal de cada autor, como o estilo de uma época (“um pano de fundo estilístico comum às obras, por diferentes que sejam”).

Novamente as coisas não são tão simples como se pretendem, e Coli nos deixa mais um um alerta:

“Neste esquema simplificado, a idéia é sedutora. Mas o problema, bem mais complexo, impede na realidade que as articulações sejam assim tão fáceis. Porque a obra de arte não se reduz ao estilo, e porque as classificações estilísticas não têm, muitas vezes, a pureza formal que evocamos [...] E também porque, no discurso sobre a arte, não é raro encontrarem-se referências à idéia de estilo como se fosse suficiente e formal, o que vem ainda mais complicar as coisas” (p.28-29).

Reduzir as obras de arte a seus respectivos estilos é tentador, pois o impulso humano de classificar busca dar ordem ao caos, domesticar a complexidade. Mas essa seria uma atitude totalmente empobrecedora e insatisfatória, demonstra Coli:

“Na maior parte das vezes, atribuímos a essas palavras [impressionismo, rococó, barroco, surrealismo, etc.] um poder excessivo: o de encarnarem uma espécie de essência à qual a obra se refere. [...] Isso nos tranqüiliza, pois [ao aplicar tais palavras] supomos conhecer o essencial sobre a obra; supomos saber o que significam as classificações, e que a obra corresponde a uma delas” (p.29).

Novamente, vale repetir aqui uma recomendação que seria a de todo historiador cultural: Conceitos e classificações nunca devem ser tomadas como algo universal; conceitos são históricos e têm vida num determinado tempo e espaço.

Texto rico
Diferentemente do recorte aqui executado, o texto Jorge Coli aborda uma grande diversidade de questões sobre a arte a obra de arte. Ele fala sobre a produção, comercialização, exposição e conservação da obra de arte e os impactos culturais gerados por cada um desses procedimentos; fala sobre a fruição e apropriação da obra por parte do espectador; e sobre a efemeridade material e cultural dos objetos artísticos, entre tantos outros assuntos.

Especificamente sobre a fruição, o autor nos alerta para o fato de que ela não seria algo imediato, fruto de uma sensibilidade inata. Em suas palavras:

“A fruição da arte não é imediata, espontânea, um dom, uma graça. Pressupõe um esforço diante da cultura. Para que possamos emocionar-nos, palpitar com o espetáculo de uma partida de futebol, é necessário conhecermos as regras desse jogo, do contrário tudo nos passará desapercebido, e seremos forçosamente indiferentes.
[...] A arte, no entanto, exige um conjunto de relações e de referências muito mais complicadas [do que no caso do futebol, por exemplo]. Pois as regras do jogo artístico evoluem com o tempo, envelhecem, transformam-se nas mãos de cada artista. Tudo na arte – e nunca estaremos insistindo bastante sobre esse ponto – é mutável e complexo, ambíguo e polissêmico. Com a arte não se pode aprender 'regras' de apreciação. E a percepção artística não se dá espontaneamente.
[...] Dessa forma, na nossa relação com a arte nada é espontâneo. Quando julgamos um objeto artístico dizendo 'gosto' ou 'não gosto', mesmo que acreditemos manifestar uma opinião 'livre', estamos na realidade sendo determinados por todos os instrumentos que possuímos para manter relações com a cultura que nos rodeia. 'Gostar' ou 'não gostar' não significa possuir uma 'sensibilidade inata' ou ser capaz de uma 'fruição espontânea' – significa uma reação do complexo de elementos culturais que estão dentro de nós diante do complexo cultural que está fora de nós, isto é, a obra de arte” (p.115-117).

O autor também faz uma breve panorâmica de importantes nomes da área, como Heinrich Wölfflin (pioneiro na análise formal), Eugenio d'Ors, Focillon e Panofsky (que mudou o foco da análise para a questão das significações – iconologia – em detrimento das questões formais).

E finaliza falando sobre o poder da arte, qual seja, o de criar mundos, de nos fazer sentir, viajar e entender.

“A arte tem assim uma função que poderíamos chamar de conhecimento, de 'aprendizagem'. Seu domínio é o do não racional, do indizível, da sensibilidade: domínio sem fronteiras nítidas, muito diferente do mundo da ciência, da lógica, da teoria. Domínio fecundo, pois nosso contato com a arte nos transforma. Porque o objeto artístico traz em si, habilmente organizados, os meios de despertar em nós, em nossas emoções e razão, reações culturalmente ricas, que aguçam os instrumentos dos quais nos servimos para apreender o mundo que nos rodeia” (p.109).

27 de março de 2008

História & História Cultural (não-ficção)

Sandra Jatahy Pesavento, 2003, Brasil

A proposta de Sandra Pesavento é apresentar uma panorâmica sobre a História Cultural, uma nova forma de abordagem da História que se consolidou no final do século XX.

“Se a História Cultural é chamada de Nova História Cultural”, afirma a autora logo na introdução da obra, “é porque está dando a ver uma nova forma de a História trabalhar a cultura. Não se trata de fazer uma História do Pensamento ou uma História Intelectual, ou ainda mesmo de pensar uma História da Cultura nos velhos moldes, a estudar as grandes correntes de idéias e seus nomes mais expressivos. Trata-se, antes de tudo, de pensar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo” (p.15).

Segundo ela, não estamos mais no tempo de certezas normativas, de leis e modelos que regem o social. A busca de verdades absolutas dá lugar à construção de versões narrativas. A História se relativiza:

“Uma era de dúvida, talvez, de suspeita, por certo, na qual tudo é posto em interrogação, pondo em causa a coerência do mundo. Tudo o que foi, um dia, contado de uma forma, pode vir a ser contado de outra. Tudo o que hoje acontece terá, no futuro, várias versões narrativas. [...] Mudou o mundo, mudou a história, mudaram os historiadores” (p.15-16).

Mudanças epistemológicas
Sandra Pesavento dedica um capítulo inteiro para os conceitos que fundamentam esse novo olhar da História e que reorientam a postura do historiador.

O primeiro desses conceitos é o da representação. De acordo com a autora, as representações seriam “formas integradoras da vida social, construídas pelos homens para manter a coesão do grupo e que propõem como representação do mundo”.

“Expressas por normas, instituições, discursos, imagens e ritos, tais representações formam como que uma realidade paralela à existência dos indivíduos, mas fazem os homens viverem por elas e nelas. [...] As representações construídas sobre o mundo não só se colocam no lugar deste mundo, como fazem com que os homens percebam a realidade e pautem sua existência. São matrizes geradoras de condutas e práticas sociais, dotadas de força integradora e coesiva, bem como explicativa do real. Indivíduos e grupos dão sentido ao mundo por meio das representações que constroem sobre a realidade” (p.39).

O segundo conceito abordado por Sandra é o de imaginário, que entende-se ser “um sistema de idéias e imagens de representação coletiva que os homens, em todas as épocas, construíram para si, dando sentido ao mundo” (p.43).

“O imaginário comporta crenças, mitos, ideologias, conceitos, valores, é construtor de identidades e exclusões, hierarquiza, divide, aponta semelhanças e diferenças no social. Ele é um saber-fazer que organiza o mundo, produzindo a coesão ou o conflito. [...] para além de sua dimensão histórica, o imaginário é capacidade humana para representação do mundo, com o que lhe confere sentido ontológico” (p.43).

A abordagem da autora nos faz perceber que o que chamamos de mundo real é indissociável do mundo imaginário, que nenhuma sociedade vive fora do imaginário. O mundo imaginário seria o mais real dos mundos, pois é por ele e nele que as pessoas efetivamente conduzem sua existência.

“[...] tudo aquilo que o homem considera como sendo a realidade é o próprio imaginário. [...] a sociedade só existe no plano do simbólico porque pensamos nela e a representamos, desta ou daquela maneira. [...] o terreno do imaginário abrange todo o campo da experiência humana” (p. 44-45).

Outro conceito abordado por ela é o de narrativa, que está relacionado ao novo entendimento da História. “Contemporaneamente, ela é entendida como a narrativa do que aconteceu um dia, entendimento que marca uma diferença significativa com as concepções anteriores”, informa a historiadora.

“Sim, a História teria como meta atingir a verdade do acontecido, mas não como mímesis. Entre aquilo que teve lugar um dia, em um tempo físico já transcorrido e irreversível, e o texto que conta o que aconteceu, há uma mediação. [...] A figura do narrador – no caso, o historiador, que narra o acontecido – é a de alguém que mediatiza, que realiza uma seleção dos dados disponíveis, que tece relações entre eles, que os dispõe em uma seqüência dada e dá inteligibilidade ao texto” (p. 50).

A relativização do alcance de uma verdade absoluta por parte da História introduz, segundo a autora, a concepção do conceito de ficção.

“Nada é simplesmente colhido do passado pelo historiador, como uma história dada. Tudo o que se conhece como História é uma construção da experiência do passado [...] A História inventa o mundo, dentro de um horizonte de aproximação com a realidade [...] Nesta medida, a História constrói um discurso imaginário e aproximativo sobre aquilo que teria ocorrido um dia, o que implica dizer que faz uso da ficção” (p. 53).

“O historiador é aquele que, a partir dos traços deixados pelo passado, vai em busca da descoberta do como aquilo teria acontecido, processo este que envolve urdidura, montagem, seleção, recorte, exclusão. Ou seja, o historiador cria o passado e [...] a História é uma forma de ficção, tal como a Literatura. [...] A ficção é quase histórica, assim como a História é quase uma ficção”, (p.53-54).

Sandra Pesavento trabalha ainda o conceito de sensibilidades, as quais seriam o “cerne daquilo que o historiador do passado pretende atingir”.

“As sensibilidades seriam, pois, as formas pelas quais indivíduos e grupos se dão a perceber, comparecendo como um reduto de tradução da realidade por meio das emoções e dos sentidos. Nessa medida, as sensibilidades não só comparecem no cerne do processo de representação do mundo, como correspondem, para o historiador da cultura, àquele objeto a capturar no passado, à própria energia da vida” (p.57).

A autora arremata: “Representação e imaginário, o retorno da narrativa, a entrada em cena da ficção e a idéia das sensibilidades levam os historiadores a repensar não só as possibilidades de acesso ao passado, na reconfiguração de uma temporalidade, como colocam em evidência a escrita da história e a leitura dos textos” (p.59).

Sobre correntes e campos de pesquisa
Segundo Pesavento, são três as correntes trilhadas pela História Cultural, a partir desse novo patamar epistemológico e metodológico. São elas: a corrente do Texto; a corrente da Micro-História; e a corrente da Nova História Política.

“A primeira delas seria aquela do texto, pensando a escrita e a leitura. Seus pressupostos de análise decorrem daqueles conceitos já apresentados, ou seja, o da compreensão da História como uma narrativa que constrói uma representação sobre o passado, e que se desdobra nos estudos da produção e da recepção dos textos” (p.69).

“A micro-história, como o próprio nome indica, realiza uma redução da escala de análise, seguida da exploração intensiva de um objeto de talhe limitado. Esse processo é acompanhado de uma valorização do empírico, exaustivamente trabalhado ao longo de extensa pesquisa de arquivo” (p.72).
“Os elementos do micro, recolhidos pelo historiador, são como a ponta de um iceberg que aflora e que permite cristalizar algo e atingir outras questões que não se revelam a um primeiro olhar” (p.73).

“Às vezes chamada de Nova História Política, essa postura resulta do endosso, pelos historiadores do político, dos pressupostos epistemológicos que presidem a análise na História Cultural. Imaginário, representação, a produção e recepção do discurso historiográfico reformularam a compreensão do político” (p.75).

De acordo com a historiadora, tais correntes se traduzem em alguns campos temáticos de pesquisa, em torno dos quais se agregam os trabalhos de investigação, quais sejam: o campo das cidades; o campo História e Literatura; o campo das imagens; o campo das identidades; o campo do presente; e o campo da memória.

Ótima leitura
Além de abordar conceitos, métodos e correntes dessa disciplina que marca uma grande virada na História, o livro apresenta os principais autores e movimentos precursores da História Cultural e ainda traz um breve panorama da historiografia brasileira nessa área.

26 de março de 2008

História & Imagens (não-ficção)

Eduardo França Paiva, 2002, Brasil

O livro integra a série “História e Reflexões”, uma coleção, publicada pela Editora Autêntica, que pretende oferecer ao leitor instrumentos que o guiem introdutoriamente nos temas lacunares da História, principalmente nos teóricos-conceituais e metodológicos do campo da História Cultural.

O autor de História & Imagens (e também idealizador da coleção) esclarece que, se antes a iconografia era usada apenas como ilustração e gravura que temperava o texto histórico, hoje ela é fonte privilegiada para a disciplina.

“A iconografia é tomada agora como registro histórico realizado por meio de ícones, de imagens pintadas, desenhadas, impressas ou imaginadas e, ainda, esculpidas, modeladas, talhadas, gravadas em material fotográfico e cinematográfico. São Registros com os quais os historiadores e professores de História devem estabelecer um diálogo contínuo. É preciso saber indagá-los e deles escutar as respostas” (p.17).

Eduardo França Paiva comenta a proposta de sua obra: “As imagens, as representações, os usos delas e as práticas culturais construídas em torno delas e por meio delas constituem [..] a linha mestra desse livro. A sua leitura crítica, que deve problematizar, contextualizar, relativizar e desconstruir, é o alvo a ser atingido. No caminho, até alcançá-lo, convido-o, leitor, a rever, a reinterpretar e a construir a história por meio dessa fonte perigosamente sedutora, uma das vedetes da historiografia mais recente, ela própria instigante e provocadora da sua própria desconstrução e de seu eterno fazer-se” (p.15).

O que a imagem nos oferece
Logo nas primeiras páginas de seu texto, o autor destaca a importância de um esforço crítico em relação à imagem. Ele lembra que apesar de seu apelo aos sentidos, a imagem é apenas um simulacro, não podendo nunca ser considerada como a realidade histórica em si. A imagem apenas traz fragmentos do real, “traços aspectos, símbolos, representações, dimensões ocultas, perspectivas, induções, códigos, cores e formas [...]. Cabe a nós decodificar os ícones, torná-los inteligíveis o mais que pudermos, identificar seus filtros e, enfim, tomá-los como testemunhos que subsidiam a nossa versão do passado e do presente, ela também, plena de filtros contemporâneos, de vazios e intencionalidades” (p.19).

História não é certeza
Em seqüência às considerações sobre a imagem e à versão histórica produzida a partir dela, Eduardo França Paiva nos oferece belas palavras sobre o caráter transitório e pantanoso da História, palavras que podem facilmente ser adaptadas para relativizar todo o conhecimento humano:

“Mas a História é isto! É a construção que não cessa, é a perpétua geração, como já se disse, sempre ocorrendo do presente para o passado. É o que garante a nossa desconfiança salutar em relação ao que se apresenta como definitivo e completo, pois sabemos que isso não existe na História, posto que inexiste na vida dos homens, que são seus construtores” (p.19).

O imaginário
Para o autor, um ponto que não pode ser levado em conta é fato de que as representações – códigos, símbolos, alegorias, etc – integram, sim, “a dimensão do real, do cotidiano, da história vivenciada”. Não existe separação entre aquilo que chamamos de mundo real e mundo imaginário, esses universos se interceptam, se sobrepõem, se confundem.

“O imaginário não é, como se poderia pensar, um mundo à parte da realidade histórica, uma espécie de nuvens carregadas de imagens e representações que pairam sobre nossas cabeças, mas que não fazem parte de nosso mundo e de nossas vidas. Ao contrário, esse campo icônico e figurativo influencia, diretamente, nossos julgamentos; nossas formas de viver; de trabalhar; de morar; de nos vestirmos; de alimentarmos; de expressarmos nossas crenças, sejam elas religiosas, políticas ou morais; de nos organizarmos em nosso cotidiano; de escolhermos nossas atividades e profissões; de construirmos nossas práticas culturais e de novamente representarmos o mundo em que vivemos, em toda sua diversidade e complexidade” (p.26-27).

A obra
História & Imagens não se esgota neste parco comentário aqui elaborado. O livro é rico em aspectos técnicos, metodológicos e conceituais, além de interessantíssimas construções históricas feitas sobre registros iconográficos. Cito algumas: desenhos que registram ocupações e formas de trabalho no Brasil do início do século XIX; o uso recorrente de animais para simbolizar o estranhamento entre continentes (domesticado e fiel, o cão, figura européia, se contrasta com o macaco, o peru, o rinoceronte, a arara e o papagaio, sinônimos de “natureza rude, selvagem, inconstante, imprevisível”); o uso da imagem como instrumento pedagógico para o cristianismo; quadros que expõem uma visão discriminadora sobre a população negra e mestiça; ou pinturas que, em outro momento histórico, passam a celebrar e valorizar expressões culturais populares de origens afro-brasileiras.

História & Imagens é “um livro sobre história cultural, que toma as representações icônicas e figurativas como pontos centrais de reflexão”, explica Eduardo França Paiva. “[...] uma reflexão sobre a recepção, a apropriação e a exploração das imagens no cotidiano, pelo público leigo e por parte dos especialistas, sobretudo por parte dos historiadores”, acrescenta.